É tarefa altamente prazerosa comentar esse belíssimo debut dos brasilienses do Dynahead. Assim como em pouquíssimas obras, "Antigen" transmite instantaneamente sua magnitude e excelência ao ouvinte. Ouvinte privilegiado, diria. Não por menos: trata-se de uma rara junção de competência, maturidade musical, versatilidade, vigor e transparência. Dada a dimensão da sonoridade desse quinteto, seria uma enorme injustiça tentar enquadrá-los em algum estilo mais conveniente. Ocorre que a dinâmica das músicas em "Antigen" sufoca a necessidade de rotulação, dada a peculiaridade de cada uma delas. "Layers of Days" é o ponto forte do disco quando se trata da união entre peso e melodias contagiantes. Com a base construída a partir de riffs poderosos que se fazem sentir, adicionada à pegada altamente técnica e cheia de groove de Rafael Dantas, à boa encorpada do baixista Diego, lapidada por vocalizações muito bem trabalhadas, é sem dúvida uma música que se destaca. "Tactile Haven", por sua vez, é uma amostra do quão repleto de variações o grupo pode se mostrar. Entre os 3'10'' e os 4'30'' dessa faixa, tem-se um período bastante ilustrativo a esse respeito. Outra faceta a ser destacada é a suavidade de "Depart Now". Sobre o aspecto delicado da música, o vocalista Caio Duarte alerta: "essa música foi escrita para parecer uma música 'de amor', quando na verdade não é. Ela fala de uma despedida (...) dos elementos do nosso 'eu' dos quais temos que abrir mão no processo de nos ajustarmos à sociedade". Além de polifacético, o primeiro full length da banda é dotado ainda de um profissionalismo latente. Não obstante, é impecável o seu acabamento sonoro (mixado por James Murphy, por sinal), e sua arte gráfica, assinada pelo artista Gustavo Sazes. Álbum altamente recomendável e sem restrições, portanto.Nota: 8/10
Selo: Independente
Data de lançamento: ??/??/??
Website: www.dynahead.com.br/ /
www.myspace.com/dynahead
Tracklist:
01. Clockwork I
02. Layers of Days
03. Virtual Twin
04. Tactile Haven
05. Join and Surrender
06. Bloodish Eyes
07. Depart Now
08. You Feel Cleansed?
09. Vorsicht!
10. The Starry Messenger
Um dos grandes expoentes do Prog Metal brasileiro, o Mindflow apresenta seu novo álbum "Destructive Device". Trata-se do terceiro full length da banda, cuja produção discográfica é completada por "Just the two of us... Me and Them" de 2004, e "Mind Over Body" de 2006. Apesar da carreira um tanto quanto recente, o grupo já vem colhendo respeitável retorno do público, inclusive no exterior. Apresentações bem-sucedidas no continente europeu, na América do Norte e Ásia, além de atestarem a excelência dos músicos expandem a boa base de admiradores conterrâneos. "Destructive Device" é, portanto, a continuação desse trabalho bem feito. Impecável em sua totalidade, e claramente concebido por meio de um projeto meticuloso, o novo disco da banda mostra resultados impressionantes. O perfeccionismo instrumental e vocálico é latente. Os créditos podem ir tanto para Rodrigo Hidalgo (guitarra); Ricardo Winandy (baixo); Rafael Pensado (bateria); Miguel Espada (teclado) e para o frontman Danilo Herbert, quanto para os produtores americanos Ben Grosse (produziu, gravou e mixou o disco) e Ted Jensen (a cargo da masterização). Arquitetado para ser extremamente coeso, o conceito que fundamenta o álbum estabelece várias ligações. Desde a arte gráfica, elaborada como um relatório do serviço secreto que investiga suspeitos de atividade "terrorista", que se conecta à temática lírica (essencialmente focada nos dilemas da humanidade), até a embalagem do próprio que se relaciona aos materiais multimídia disponibilizados pela banda na Internet. Músicas como "Breakthrough"; "Under An Alias"; "Destructive Device", entre outras, satisfarão os anseios dos admiradores de metal progressivo refinado. Álbum altamente recomendável, portanto.



O experimentalismo dentro do Metal já não é mais nenhuma novidade, tampouco restritamente praticado. Desse modo, a fazer valer a mesma tendência autofágica de outros gêneros já saturados (como o Metalcore, e mais recentemente o Deathcore), apenas os músicos mais competentes obtêm sucesso. E o quarteto californiano Shrimp acaba se enquadrando nesse seleto último grupo. Não por menos, pois os músicos são excelentes. A destreza técnica de todos os integrantes lhes permite uma versatilidade impressionante. Assim, cada uma das cinco músicas que compõem seu EP de estréia, o "Gonzo Fishing Trip", são completamente distintas umas das outras, porém, preservando um certo padrão estabelecido pela banda (o que pode ser difícil de se perceber, uma vez que padrão seja um conceito aparentemente ignorado pelo grupo). Ao contrário do que se possa pensar ao se deparar com o ar debochado e excêntrico da obra, trata-se de um trabalho sério, muito bem gravado e produzido, e de ótimo acabamento (contendo uma interessante arte gráfica do álbum, em formato digipack). Por se tratar de um álbum de qualidade homogênea, os destaques a serem feitos não seguem uma hierarquia. Ressalta-se, portanto, boas passagens como: o refrão grudento em "Manifest Democracy"; o solo do baterista Justin em "The Lobstrosities"; e o esforço coletivo na excelente "I'll Be Your Huckleberry". O quarteto sagrou-se muito bem sucedido em sua estréia, portanto. E o que é bom pode ser ainda melhor: o primeiro full-length já está por vir.
A proveniência da banda condiz com o estilo que praticam. Vindos da "extrema zona sul" da capital paulista, os quatro integrantes do D.E.R. são partidários de uma sonoridade igualmente extrema, o grindcore. "Quando a esperança desaba", o primeiro full-length da banda, é um interessante trabalho de resgate a uma sonoridade clássica do gênero. A começar pela duração das faixas, sendo que a mais longa atinge 1'17", nota-se que esse quarteto não se rendeu às novas tendências. E por qual motivo haveriam de o fazer, se a forma mais crua e direta do estilo lhes é muito mais verdadeira? A britadeira caótica faz mais jus à vida que levam. A vida de quem sente a cada dia o pesado fardo de viver em um mundo de exploração, desencanto, ódio, e desesperança. E essa temática chega a seus ouvidos sem refresco: aos berros guturais de Thiago Nascimento; pela guitarra distorcida de Renato; pela velocidade do baixo de Henrique; e pelos incansáveis blast-beats do ótimo baterista Barata. No aspecto geral das músicas, a variação entre elas é mínima. Porém, dá brechas a alguns destaques: a vigorosa "Empregando o Capital" (cujo videoclipe, dirigido por Pierre Kerchove, do Ruina, vem incluso no disco); e o virtuosismo de Barata logo na abertura do disco em "O Que Foi Escrito Eu Apaguei". Acertaram ainda no aspecto gráfico sujo do álbum, e no auxílio na divulgação pelo selo Karasu Killer, com sede no Japão (o que explica as traduções das letras para o japonês). Uma boa sugestão aos fãs de Napalm Death e afins.
Recoberto pela áurea sombria e cabisbaixa do Black Metal, o álbum de estréia do Ruina, homônimo dessa banda divida entre São Paulo e Curitiba, faz o tipo do disco que parece despretensioso de início, mas que vai tomando corpo e envolvendo conforme a audição. Portanto, não se atenha à simples etiqueta acima, pois o registro vai além disso, flertando com uma gama de outros estilos. A diversidade extrapola o gênero musical, se devendo também ao peculiar fato de o disco ser bilíngue. Há letras em português e em francês. Tinha tudo para soar bizarro, portanto, mas não é o que ocorre. Os vocais de Pierre, auxiliado por Gustavo e Marco, estão bem encaixados na proposta das músicas. O instrumental não fica atrás. O contrabaixo é notável e bem construído; Thiago usualmente compõe linhas simples de bateria, mas mostra que sabe incrementar complexidade quando o momento exige; Marco é um ponto-chave do enredo da banda, cabendo a ele a tarefa de "dar cor" à música. Sua competência se comprova na inesquecível faixa "Olhos Vendados". A "choradeira" de sua guitarra é também marcante em "Instrumental II". A arte gráfica do álbum é ainda outro destaque. Elaborando um paralelo com a sonoridade, há diversas figuras bem feitas que exploram o tracejado, beirando o rabisco. A gravação segue o mesmo princípio: valorizou o simples, com eficiência. "Ruina" é pura espontaneidade, sinceridade e coerência. Um disco ímpar, que mesmo tendo dispensando ambições faraônicas, consegue agradar a seu modo.
O Nirvana é (pois nunca deixou de ser), um dos maiores ícones do Rock moderno. Goste você ou não da banda, deve reconhecer isso. Fato é que ao redor do mundo é raríssimo se deparar com uma alma viva que nunca tenha sequer ouvido falar desse trio, transformado em quarteto em seus últimos dias de existência. Tamanho sucesso, astronômico por assim dizer, se deveu ao disco, que segundo alguns, mudou os rumos da música à época: "Nevermind". Alguns podem até alegar que este não é o melhor disco, que "In Utero" é superior e blá blá blá... Mas, convenhamos, Nirvana, da forma como conhecemos hoje, só o é por conta desse álbum. E lá se vão 17 longos anos desde o seu lançamento, mas no entanto, esta pérola não parece ter envelhecido, ao contrário - está cada vez mais viva. Clássicos legítimos resistem à prova do tempo. E esse mesmo tempo provou que uma geração inteira, que cresceu apreciando o disco, nunca mais vai esquecê-lo. Quer ver um teste? Atire a primeira pedra quem, em seus primeiros passos no violão (ou guitarra), nunca dedilhou "Come as You Are"?! Clássicos legítimos são também álbuns completos, perfeitos. O que dizer então de um tracklist que consiga reunir nada menos do que: "Smells Like Teen Spirit"; "Polly"; "Lithium"; "In Bloom"; "Territorial Pissings"; e "Something In The Way", além é claro do grande sucesso didático acima citado? Não apenas isso: as demais faixas são igualmente sensacionais, apenas não tiveram a mesma repercussão. Em pensar que nem a gravadora, tampouco a banda esperavam muito do disco! Clássicos legítimos são ainda marcos iconográficos. Alguma outra capa de cd lhe é tão marcante quanto o bebê na piscina com uma nota de dólar à sua frente? Entretanto, tal clássico legítimo cobrou o seu preço pouco tempo depois: Kurt Cobain. Que seus órfãos continuem a chorar oceanos de lágrimas, mas ainda sustento: teve o seu fim no momento certo, no seu auge. Nada mais coerente com seu estilo de vida romântico, pois com a mesma rapidez em que surgiu aos olhos do mundo, se foi. Assim como os grandes gênios das artes.