A criatividade humana representada nas expressões artísticas pode se apresentar de forma tão complexa, abstrata e expansiva, ao ponto de o seu entendimento ficar prejudicado. Tal fato é latente em "The Bedlam In Goliath". Não se deve pressupor, no entanto, que essa característica desse álbum ímpar venha surpreender a grande maioria dos fãs (ou mesmo curiosos) dessa banda que vem se superando a cada nova obra (importante que se frise o sentido literal da palavra), o The Mars Volta. É sempre interessante acompanhar a trajetória musical de um grupo e analisar suas mutações e evoluções musicais ao longo do tempo, e com o T.M.V. não haveria de ser diferente. Vai além inclusive - é uma experiência única. O embrião (Cedric e Omar Rodríguez) que deu origem a esse colosso, progredia lentamente ainda dentro do At the Drive-In, e era responsável pelas experimentações introduzidas dentro da sonoridade deste ícone do post-hardcore. A prolífica mente do vocalista e do guitarrista em questão, tornou as ambições da dupla "grandes" demais para o espaço a eles concedido. Eis que, enfim surge o The Mars Volta, e o terreno propício para se pôr em prática a avalanche de idéias que estes dois homens ocasionam está garantido. "De-Loused in the Comatorium" de 2003, estava ainda um tanto arraigado ao rock agitado outrora executado pela dupla (embora soe absolutamente distante de "Relationship of Command") e relativamente aos álbuns que se seguiriam, pouco experimental. Dois anos mais tarde, "Frances the Mute" mostrava um excesso de sons, ruídos e estranhesas do tipo, carregando um clima fúnebre em virtude da morte de um amigo e participante da banda. Já "Amputechture", um álbum desconceitual, portanto fato atípico do grupo, passou desapercebido. O lançamento de 2008, por sua vez, é uma espécie de apanhado geral do que foi criado e ao mesmo tempo, único. Nascido de um presente excêntrico, e diga-se de passagem amaldiçoado (provável causador de inúmeros incidentes, sem explicação, envolvendo integrantes da banda ) dado por Omar a Cedric, o álbum gira em torno de uma intrincada trama encabeçada por Goliath (a alma de um santo sedento por retornar ao mundo real que era evocada através do presente). A densidade conceitual, obviamente, evidencia-se nas composições. Mesmo que nesse disco uma única faixa seja por vezes três (músicas) em uma, os destaques ficaram por conta de "Aberinkula", "Goliath" e "Ouroboros". Outro ponto sobressalente no disco, é a participação do guitarrista John Frusciante (Red Hot Chili Peppers). Apesar de toda a sua magnitude e impecável originalidade, "The Bedlam In Goliath" peca no aspecto do entretenimento. A primeira metade do disco é fantástica, entretanto, a complexidade e a difícil absorção desse mundo lunático, torna os 76 minutos do disco quase imprazerosos de serem ouvidos ininterruptamente. É o típico álbum que acaba sendo consultado esporadicamente. Excelente todavia, mas com esse porém. Enquanto isso...alguém sabe do paradeiro do Sparta?Nota: 8/10
Selo: Universal, Gold Standard Laboratories
Data de lançamento: 29/01/2008
Website: www.themarsvolta.com/ /
www.myspace.com/themarsvolta
Tracklist:
1. Aberinkula
2. Metatron
3. Ilyena
4. Wax Simulacra
5. Goliath
6. Tourniquet Man
7. Cavalettas
8. Agadez
9. Askepios
10. Ouroboros
11. Soothsayer
12. Conjugal Burns


Guardada as devidas proporções, eis uma mistureba de At The Drive-In + Underoath: Thursday. "Kill the house lights", o quarto full-lengh desses veteranos do post-hardcore é uma espécie de retrospectiva da produção da banda. Tanto o é que o novo álbum do grupo vem acompanhado de um DVD, abrangendo esses 10 anos de existência da banda em forma de documentário, e em forma de performances ao longo da estrada. O título do registro é inspirado na letra de "M. Shepard" do álbum War All The Time, que trata do caso do estudante universitário Matthew Shepard, espancado até a morte, vítima de homofobia. O álbum é iniciado com "Ladies and Gentlemen: My Brother, the Failure", faixa que poe o ouvinte logo em contato com o vocal de Geoff Rickly. Para ouvidos virgens de Thursday (como os meus), o modo que Geoff canta pode soar um tanto quanto desafinado, mas isso não tira o brilho da música. Após o primeiro contato, esse mesmo cantor vai se transformando no elo de ligação entre você e o ambiente dramático, agoniado dessa faixa, muito em parte de seu tremendo alcance vocal. Mais adiante em "Signals Over the Air", esse sexteto mostra uma nova faceta, mais experimental. "Dead Songs" parece um pouco tumultuada de início, mas acaba ganhando pelo refrão simpático. Em suma, nada muito além do que se prevê desde o início do registro, o que no entanto não vem a desagradar. O fato de o disco conter algumas faixas ao vivo e outras em formato demo, é mais um item positivo adicionado no balanço geral. 
Uma das bandas brasileiras de hardcore moderno mais notáveis aqui e no exterior atualmente, o Paura, impressiona de novo. Conseguiu o milagre de superar o excelente "Youkillusweovercome"! Quem já conhece essa pérola vai entender a dimensão do feito desse quinteto paulistano. Tal fardo de superação não se restringia somente à qualidade do registro. Ia além. "Youkillusweovercome" foi o responsável pela expansão e consolidação do prestígio da banda no exterior, mais especificamente nos países sul-americanos como Chile e Argentina (onde realisaram uma turnê). Ultrapassando os 10 anos de estrada e com o recente lançamento do sexto disco da carreira, os veteranos do Paura provam que não se acomodam um minuto sequer com suas conquistas. Isso inclusive só lhes dá mais ânimo de continuar batalhando em busca da superação e da perfeição a cada trabalho. Sendo assim, os bons resultados sempre aparecem. Gravado e mixado pelo próprio baterista da banda (Henrique Pucci), em seu estúdio, e posteriormente masterizado por Alexander Dietz (guitarrista do Heaven Shall Burn), está o que Fábio Prandini (vocalista) afirmou como sendo "o disco definitivo do Paura". "Reverse The Flow" é fúria, revolta, ódio, medo, pavor...Tudo milimetricamente bem dosado para não criar exageros e soar forçoso. Junte a velha guarda hardcoriana com pegadas ao melhor estilo Sepultura, de forma única, e terás o trailer da obra. O conjunto das cordas (guitarras e baixo) está impecável. A voz de Fábio encaixou-se perfeitamente na proposta da banda, e a técnica de Henrique foi devidamente destacada. As faixas que conseguiram se sobressair a esse conjunto de músicas de tamanha qualidade são: "The Killing Mask", "Source Of Violence" e a que dá nome ao disco. Os 12 meses de trabalho árduo dispendidos na composição do álbum transmitem ao ouvinte a sensação de que cada milésimo de segundo, cada verso, cada arranjo, enfim, cada componente do disco teve um propósito muito bem pensado. A espera foi grande, sim. Mas certamente, foi extasiante ouvir essa perfeição de resultado. "Reverse The Flow" é item obrigatório para ouvintes de tímpano apurado.
Para todos os que pensam que o cenário do metal nacional de qualidade se restringe ao Sudeste, principalmente a São Paulo, os curitibanos do Ayat Akrass chegam para convencê-los de que estão enganados. Fazem isso em matadores 38 minutos do belíssimo "Como Uma Tela Pintada Com O Nosso Sangue". Desde a concepção artística do material (capa, encarte e contracapa) ao acabamento das músicas, percebe-se que houve uma preocupação muito nítida em fazer deste disco uma legítima obra de arte. A temática que engloba os ideários da banda só vem confirmar o fato de que não se trata aqui de um grupo qualquer. O Ayat Akrass cita explicitamente que além de nomes consagrados como Napalm Death, Sepultura e Biohazard, faz parte do conjunto de suas influências o legado do inigualável teórico alemão Karl Marx! Devido à postura politicamente engajada da banda, esta assume um patamar quase vanguardista. Já quando acrescentado o seu instrumental nessa análise, nos vemos então diante da iminência de uma revolução do metal moderno. A maturidade sonora atingida pelo quinteto é invejável e surpreendente, pois são apenas quatro os anos de existência da banda. Após a demo "Quando o preço da glória é pago com sangue" (2003) e o EP "Entre Corpos e Cinzas" (2005), o AA exibe agora um trabalho encorpado, denso e impactante, que é de deixar o mais exigente dos ouvintes boquiaberto. Todas as músicas são executadas com uma destreza técnica excepcional. A dupla Edgard Navarro e Marcelo Bacellar esbanja dinamismo e criatividade, Braulio Delai intensifica o peso da música com uma pegada precisa, Andre Cirino dita o andamento das faixas com tanta virtuosidade que chega a roubar a atenção do ouvinte (no ótimo sentido), e Nilo Netto fecha o quinteto mostrando sua vigorosa linearidade vocal (para o nosso deleite). Ainda que seja um álbum todo bom, os destaques vão para "Descaminho", "Entre Corpos e Cinzas: Segundo Ato" e "Agosto Vermelho". Gravado num dos melhores estúdios do país (DaTribo), "Como Uma Tela Pintada Com O Nosso Sangue" se encaminha para se consolidar como um dos discos mais importantes do metal nacional. Vale (literalmente) cada centavo. O feliz comprador ainda leva de brinde o vídeo de "Descaminho".
Inusitado. Certamente inusitado. Creio que muitos, assim como aconteceu comigo, irão se surpreender com "Echoes, Silence, Patience & Grace", o sétimo álbum do Foo Fighters. Na verdade o quarto da banda como um todo, já que o disco debut e seus dois sucessores foram gravados unica e exclusivamente pelo "mil em um" Dave Grohl. Para quem esperava por um disco que seguisse a tradição do que vinha sendo apresentado pelo grupo: surpresa. Já para os que esperavam por uma reviravolta vinda das entranhas da prolífica mente do frontam desses lutadores, eis então um banquete. O cartão de visita vem com "The Pretender", a primeira música de trabalho desse álbum. Pude constatar que a faixa transita por pelo menos 3 ambientações: logo no início surge um dedilhado de guitarra seguido de uma vocalização melosa a lá Oasis; as passagens que intermediam esse prólogo juntamente com o refrão marcam presença no melhor estilo "All My Life" de ser; e perto dos dois minutos e meio, a rapidez e a energia dão uma cessada, cedendo lugar a uma passagem do tipo "batendo palminhas" com direito a um riff extremamente típico dos anos 70! Mais adiante, temos "Long Road to Ruin", uma música mais leve, para relaxar e, por que não, curtir uma sensação de nostalgia? (Vale lembrar que o exemplo só serve para aqueles que já carregam entre 3 e 4, ou até mais que isso, décadas de existência nesse planeta nas costas - nosso boss que vos fale!). Quem já ouviu The Monkeys e The Beach Boys sabe do que estou falando. "Echoes, Silence, Patience & Grace" tem mesmo de tudo, de baladinha praiana perfeita para um lualzinho, como é o caso de "Stranger Things Have Happened", até o instrumental folk de "Ballad of the Beaconsfield Miners". A experiência de fazer um disco duplo, divido em músicas plugadas e desplugadas, seguida da gravação do primeiro acústico da banda fez o pessoal gostar da coisa. Sem dúvida, a harmonia entre os integrantes está muito boa, faltou apenas um pouco mais de versatilidade nas composições..jpg)
