quinta-feira, novembro 08, 2007

Paura - Reverse The Flow

Uma das bandas brasileiras de hardcore moderno mais notáveis aqui e no exterior atualmente, o Paura, impressiona de novo. Conseguiu o milagre de superar o excelente "Youkillusweovercome"! Quem já conhece essa pérola vai entender a dimensão do feito desse quinteto paulistano. Tal fardo de superação não se restringia somente à qualidade do registro. Ia além. "Youkillusweovercome" foi o responsável pela expansão e consolidação do prestígio da banda no exterior, mais especificamente nos países sul-americanos como Chile e Argentina (onde realisaram uma turnê). Ultrapassando os 10 anos de estrada e com o recente lançamento do sexto disco da carreira, os veteranos do Paura provam que não se acomodam um minuto sequer com suas conquistas. Isso inclusive só lhes dá mais ânimo de continuar batalhando em busca da superação e da perfeição a cada trabalho. Sendo assim, os bons resultados sempre aparecem. Gravado e mixado pelo próprio baterista da banda (Henrique Pucci), em seu estúdio, e posteriormente masterizado por Alexander Dietz (guitarrista do Heaven Shall Burn), está o que Fábio Prandini (vocalista) afirmou como sendo "o disco definitivo do Paura". "Reverse The Flow" é fúria, revolta, ódio, medo, pavor...Tudo milimetricamente bem dosado para não criar exageros e soar forçoso. Junte a velha guarda hardcoriana com pegadas ao melhor estilo Sepultura, de forma única, e terás o trailer da obra. O conjunto das cordas (guitarras e baixo) está impecável. A voz de Fábio encaixou-se perfeitamente na proposta da banda, e a técnica de Henrique foi devidamente destacada. As faixas que conseguiram se sobressair a esse conjunto de músicas de tamanha qualidade são: "The Killing Mask", "Source Of Violence" e a que dá nome ao disco. Os 12 meses de trabalho árduo dispendidos na composição do álbum transmitem ao ouvinte a sensação de que cada milésimo de segundo, cada verso, cada arranjo, enfim, cada componente do disco teve um propósito muito bem pensado. A espera foi grande, sim. Mas certamente, foi extasiante ouvir essa perfeição de resultado. "Reverse The Flow" é item obrigatório para ouvintes de tímpano apurado.

Nota: 10/10
Selo: Liberation
Data de lançamento: 02/09/07
Website: www.paura.com.br/ /
www.myspace.com/paura3rdworld

Tracklist:
01. Reverse The Flow
02. The Killing Mask
03. Drive By Fire
04. Clean Exposure
05. Source Of Violence
06. Old Tools Work
07. Back And At War
08. Unbroken Tree
09. Death Is A Gift
10. Insurgence

terça-feira, outubro 23, 2007

Ayat Akrass - Como Uma Tela Pintada Com O Nosso Sangue

Para todos os que pensam que o cenário do metal nacional de qualidade se restringe ao Sudeste, principalmente a São Paulo, os curitibanos do Ayat Akrass chegam para convencê-los de que estão enganados. Fazem isso em matadores 38 minutos do belíssimo "Como Uma Tela Pintada Com O Nosso Sangue". Desde a concepção artística do material (capa, encarte e contracapa) ao acabamento das músicas, percebe-se que houve uma preocupação muito nítida em fazer deste disco uma legítima obra de arte. A temática que engloba os ideários da banda só vem confirmar o fato de que não se trata aqui de um grupo qualquer. O Ayat Akrass cita explicitamente que além de nomes consagrados como Napalm Death, Sepultura e Biohazard, faz parte do conjunto de suas influências o legado do inigualável teórico alemão Karl Marx! Devido à postura politicamente engajada da banda, esta assume um patamar quase vanguardista. Já quando acrescentado o seu instrumental nessa análise, nos vemos então diante da iminência de uma revolução do metal moderno. A maturidade sonora atingida pelo quinteto é invejável e surpreendente, pois são apenas quatro os anos de existência da banda. Após a demo "Quando o preço da glória é pago com sangue" (2003) e o EP "Entre Corpos e Cinzas" (2005), o AA exibe agora um trabalho encorpado, denso e impactante, que é de deixar o mais exigente dos ouvintes boquiaberto. Todas as músicas são executadas com uma destreza técnica excepcional. A dupla Edgard Navarro e Marcelo Bacellar esbanja dinamismo e criatividade, Braulio Delai intensifica o peso da música com uma pegada precisa, Andre Cirino dita o andamento das faixas com tanta virtuosidade que chega a roubar a atenção do ouvinte (no ótimo sentido), e Nilo Netto fecha o quinteto mostrando sua vigorosa linearidade vocal (para o nosso deleite). Ainda que seja um álbum todo bom, os destaques vão para "Descaminho", "Entre Corpos e Cinzas: Segundo Ato" e "Agosto Vermelho". Gravado num dos melhores estúdios do país (DaTribo), "Como Uma Tela Pintada Com O Nosso Sangue" se encaminha para se consolidar como um dos discos mais importantes do metal nacional. Vale (literalmente) cada centavo. O feliz comprador ainda leva de brinde o vídeo de "Descaminho".

Nota: 10/10
Selos: Deathtime , Estopim, Firestorm, Fuckitall, União Positiva
Data de lançamento: 01/06/07
Website: www.myspace.com/ayatakrass

Tracklist:
01. Intro
02. Descaminho
03. Entre Corpos e Cinzas: Segundo Ato
04. Amar e Inflamar
05. Catraca
06. Agosto Vermelho
07. Entre Corpos e Cinzas: Primeiro Ato
08. Quadro Negro
09. Entre Corpos e Cinzas: Terceiro Ato
10. Por Outros Tempos



Foo Fighters - Echoes, Silence, Patience & Grace

Inusitado. Certamente inusitado. Creio que muitos, assim como aconteceu comigo, irão se surpreender com "Echoes, Silence, Patience & Grace", o sétimo álbum do Foo Fighters. Na verdade o quarto da banda como um todo, já que o disco debut e seus dois sucessores foram gravados unica e exclusivamente pelo "mil em um" Dave Grohl. Para quem esperava por um disco que seguisse a tradição do que vinha sendo apresentado pelo grupo: surpresa. Já para os que esperavam por uma reviravolta vinda das entranhas da prolífica mente do frontam desses lutadores, eis então um banquete. O cartão de visita vem com "The Pretender", a primeira música de trabalho desse álbum. Pude constatar que a faixa transita por pelo menos 3 ambientações: logo no início surge um dedilhado de guitarra seguido de uma vocalização melosa a lá Oasis; as passagens que intermediam esse prólogo juntamente com o refrão marcam presença no melhor estilo "All My Life" de ser; e perto dos dois minutos e meio, a rapidez e a energia dão uma cessada, cedendo lugar a uma passagem do tipo "batendo palminhas" com direito a um riff extremamente típico dos anos 70! Mais adiante, temos "Long Road to Ruin", uma música mais leve, para relaxar e, por que não, curtir uma sensação de nostalgia? (Vale lembrar que o exemplo só serve para aqueles que já carregam entre 3 e 4, ou até mais que isso, décadas de existência nesse planeta nas costas - nosso boss que vos fale!). Quem já ouviu The Monkeys e The Beach Boys sabe do que estou falando. "Echoes, Silence, Patience & Grace" tem mesmo de tudo, de baladinha praiana perfeita para um lualzinho, como é o caso de "Stranger Things Have Happened", até o instrumental folk de "Ballad of the Beaconsfield Miners". A experiência de fazer um disco duplo, divido em músicas plugadas e desplugadas, seguida da gravação do primeiro acústico da banda fez o pessoal gostar da coisa. Sem dúvida, a harmonia entre os integrantes está muito boa, faltou apenas um pouco mais de versatilidade nas composições.


Nota: 7/10
Selo: RCA
Data de lançamento: 25/09/07
Website: www.foofighters.com/ /
www.myspace.com/foofighters

Tracklist:
1. The Pretender
2. Let It Die
3. Erase/Replace
4. Long Road to Ruin
5. Come Alive
6. Stranger Things Have Happened
7. Cheer Up, Boys (Your Make Up Is Running)
8. Summer's End
9. Ballad of the Beaconsfield Miners
10. Statues
11. But, Honestly
12. Home

domingo, setembro 23, 2007

Coliseum - No Salvation

Você aí que gosta de true Hardcore, olho vivo em "No Salvation", terceiro lançamento do Coliseum. Mais precisamente, não se trata de um legítimo hardcore, já que a banda vale-se de elementos do punk rock e até do rock 'n' roll. De toda maneira, é o bom e velho HC que se faz mais perceptível. Não bastasse o fato por si só, somos agraciados pela altíssima competência dos músicos, que, pasmem, são apenas três! Chris Maggio é impecável no domínio rítmico das músicas do disco. Ele nos dá até uma palhinha de seu virtuosismo e versatilidade em "Shake It Off". Mike Pascal executa com maestria a sua função de baixista, dando o peso característo dos contra-baixos de HC. Já Ryan Patterson fecha o trio comandando com digníssimo talento tanto as guitarras quanto os vocais da banda. É de se espantar que o trio consiga criar uma música tão expansiva e envolvente. Definitivamente, esse é o ponto forte do disco: sua força de atração. O ouvinte é literalmente trazido para dentro das músicas, para dentro do ambiente deliciosamente incosequente e rebelde. O álbum é dotado de uma energia incrível que, inexplicavelmente, não cessa. Você fica Pavlovianamente condicionado a ouvir o disco de novo, e de novo, e mais uma vez. Provavelmente quando acabar, já vai sentir falta e querer ouví-lo de novo. Com as devidas proporções reservadas, quem já conferiu "Class War" do Wisdom In Chains irá traçar algumas semelhanças. Mas com o perdão da palavra, "No Salvation" é um tanto superior. Há algum tempo não sentia mais tanto gosto em ouvir um cd "de cabo a rabo". Mérito ao Coliseum que faz jus ao nome, nos presentiando com uma obra colossal!

Nota: 9/10
Selo: Relapse
Data de lançamento: 21/08/07
Website: www.myspace.com/coliseum

Tracklist:
01. No Benefit
02. Defeater
03. The Fate of Men
04. Seven Cities
05. Profetas
06. Shake It Off
07. Skyline Fucker
08. Funeral Line
09. White Religion
10. Interceptor
11. Fall Of The Pigs
12. Believer
13. The Burden

segunda-feira, setembro 17, 2007

Marilyn Manson - Eat Me, Drink Me

Brian Hugh Warner, ou melhor, Marilyn Manson renasceu das cinzas! Aleluia irmãos! Após 4 anos respirando outros ares, o andrógino mais odiado e mais fanaticamente adorado da civilização moderna volta a trabalhar no que o consagrou: a música. Beirando a casa dos 40, Manson deixa claro em "Eat Me, Drink Me" o que os anos de vida nesse mundo lhe proporcionaram - maturidade. Fique bem claro, no entanto, que isso não quer dizer que A BESTA está mais comportada. Jamais! O videoclipe da 1ª música de trabalho, "Heart-Shaped Glasses (When The Heart Guides The Hand)", acalma os ânimos dos que pensam que o titio tá ficando careta (sem trocadilho!). Em quase toda sua duração, o vídeo mostra cenas de sexo, que Manson afirma ele próprio ter executado, e sem "fazer de conta"! Não bastassem as imagens e o making off das mesmas, entrando no âmbito da vida pessoal do artista, a coisa ganha proporção ainda mais chocante. Recentemente Brian se divorciou. O motivo: outra. Que outra? Essa mesma que atua no clipe! Espantado? Ainda tem mais. A sonoridade do disco está irreconhecivelmente mais light e experimental (principalmente se compararmos com "Antichrist Superstar"), chegando ao ponto de, na música citada acima, me ocorrer a vaga semelhança com as chamadas bandas indie. Manson pouco se importa com rotulações ou comparações, o que me deixa a vontade para fazer outra. Por adotar a cada álbum todo um contexto novo (incluindo visual e tema geral tratado no disco) e também uma sonoridade original, Manson se assemelha muito com o camaleão do rock David Bowie. A tématica de "Eat Me, Drink Me" adentra o mundo de "Alice no país das maravilhas". O exemplo mais claro é "Are You The Rabbit?". Outros destaques ficaram por conta de: "Putting Holes In Happiness"; "Eat Me, Drink Me" e "They Said That Hell's Not Hot". A produção desse espécime raro de americano (daqueles com visão crítica e que entendem arte como arte, e não como mero produto) ganhou mais uma bela obra. É possível fazer um disco impactante, sem, no entanto, massacrar ouvidos alheios - foi o que Manson provou nesse novo cd. Coma Marilyn Manson, beba Marilyn Manson, deguste Marilyn Manson. Por incrível que pareça, será uma boa experiência.

Nota: 8/10
Selo: Interscope
Data de lançamento: 05/06/07
Website: www.marilynmanson.com/ /
www.myspace.com/marilynmanson

Tracklist:
1. If I Was Your Vampire
2. Putting Holes In Happiness
3. The Red Carpet Grave
4. They Said That Hell's Not Hot
5. Just A Car Crash Away
6. Heart-Shaped Glasses (When The Heart Guides The Hand)
7. Evidence
8. Are You The Rabbit?
9. Mutilation Is The Sincere Form Of Flattery
10. You And Me And The Devil Makes 3
11. Eat Me, Drink Me

sábado, setembro 01, 2007

Otep - The Ascension

É tarefa quase impossível ouvir esse novo Otep sem evitar comparações. Nada mais do que previsível, já que uma certa falta de identidade sonora parece perseguir a banda. Em "House of Secrets" a semelhança vocal de Otep Shamaya pendia mais para a bestialidade de Angela Gossow (Arch Enemy). Agora, sua vocalização pende mais para o quarteto canadense Kittie, e, em algumas passagens, se assemalha a Candace Kucsulain (Walls of Jericho). O que quer que tenha ocorrido entre o último disco e "The Ascension", foi forte o suficiente para ocasionar tamanha mudança. Diante da tendência das demais bandas de New Metal de buscarem suas "reinvenções", essa banda californiana mostra nesse novo álbum que está, sutilmente, seguindo o caminho inverso - voltando às raízes do gênero. Ousadia? Suicídio?! Só o tempo poderá dizer. Mas, verdade seja dita: aquele Otep que ainda engatinhava, descoberto por Sharon Osbourne, não é mais o mesmo; o mundo musical não é mais o mesmo (e não está pra peixe); e o Nu Metal agoniza seus últimos dias. Portanto, o cenário não está favorável à esse tipo de postura. Entretanto, Shamaya e sua banda valeram-se também de algumas misturas em seu som: aplicam elementos de Death Metal, Gótico e até algumas pitadas de rap (como em boa parte de "Confrontation"). A faixa que talvez exemplifique melhor todo esse caldeirão que compõe o disco é "Ghostflowers". Em primeira instância, vocais sussurrados e agonizantes vão criando um clima de tensão, logo em seguida Karma Cheema faz alguma coisa com seu instrumento que me lembra música árabe (!), um novo clima de tensionamento se segue até atingir o ápice desse suspense (onde a frontwoman libera toda a sua energia vocálica). "The Ascension" deixou a desejar pela sua notória falta de definição. Mesmo misturando alguns elementos, soa bastante indeciso. "Breed" (cover do Nirvana), soando no mínimo estranha, e a balada "Perfectly Flawed" (apesar de agradável), são atenuantes desse impasse, pois simplesmente não tem nada a ver com as demais músicas do álbum. Uma coisa é certa: A Ascensão não virá por esse rumo. Antes de mais nada, é preciso se decidir de que lado do muro se posicionar.

Nota: 6/10
Selo: Capitol
Data de lançamento: 2007
Website: www.otep.com/ /

Tracklist:
1. March of the Martyrs
2. Confrontation
3. Perfectly Flawed
4. Crooked Spoons
5. Milk of Regret
6. Noose and Nail
7. Ghostflowers
8. Breed (Nirvana cover)
9. Eat the Children
10. Invisible
11. Home Grown
12. Communion
13. Andrenochrome Dreams

sexta-feira, agosto 31, 2007

Cuidado com o que você pede...

(Crônica de Luis Fernando Verissimo, retirada do livro "Sexo na cabeça")


Pô, Luana.
- Não chega nem perto.
- Mas estamos só você e eu nesta ilha. E estaremos aqui pelo resto das nossas vidas.
- Vai ler teu livro, vai. Você não disse que era o seu favorito?
- Mas eu já li o livro várias vezes.
- Então vai ouvir o teu disco e me deixa em paz.
- Com que aparelho? Nesta ilha não tem eletricidade. Nesta ilha não tem nada. Só coqueiros. E nós dois.
- A escolha foi sua. Ninguém me perguntou nada.
- Como é que eu ia saber que a pergunta não era hipotética? Que quando o cara me perguntou que livro, que disco e que mulher eu levaria para uma ilha deserta, não era pesquisa? Que ele ia interpretar não como sonho, mas como pedido?
- Você devia ter desconfiado do turbante.
- Se eu soubesse, teria pedido mantimentos. Enlatados, champanhe. Um gerador. Algum tipo de moradia, com som e mordomia. Talvez um bar. Sei lá. E 30 anos menos.
- Azar.
- Pô, Luana. Só um beijinho.
- Não-ô.
Passa o tempo. Eu e Luana Piovani conseguimos sobreviver na ilha deserta, mas a duras penas. Dada a nossa diferença de idades e de preparo físico, é ela que trepa nos coqueiros para pegar o coco e constrói a cabana rudimentar que nos abriga, com camas de capim separadas. Ela reluta, depois acaba sedendo aos meus insistentes pedidos e tira o sutiã, mas só para fazermos um anzol do fecho de metal. Conseguimos pegar alguns peixes, usando mariscos como isca. Como não temos fósforo, fazemos fogo usando o CD do Miles Davis com o Sonny Rollins e o Horace Silver para refletir a luz do sol num monte de gravetos e alimentando o fogo com as páginas de O grande Gatsby. Quando termina o papel, usamos capim seco, ou comemos o peixe cru mesmo. Improviso uma armadilha para roedores com o estojo de plástico do CD. Não pegamos nada. A ilha é tão deserta que não tem nem roedor. De noite, tento me aconchegar a Luana, para pelo menos nos protegermos do frio. Ela me repele.
- Não-ô.
Passam-se anos. Um dia, sinto a Luana mordiscando a minha orelha. Me afasto. Mesmo se quisesse alguma coisa com ela, não poderia. Estou anêmico e enfraquecido. A dieta de coco, peixe cru e água da chuva não me fez bem. E a Luana também está péssima. A roupa esfarrapada deixa entrever quase todo o seu corpo curtido pelo sol e o vento, mas eu nem olho mais. Ela insiste na orelha. Diz que já que estaremos lá para sempre e não tem remédio... Eu me recuso. Se estivéssemos em qualquer outro lugar e não lutando para sobreviver daquele jeito, talvez rolasse alguma coisa entre nós. Mas naquelas condições estressantes, numa ilha deserta... Pego o que sobrou de O grande Gatsby, as duas capas apodrecidas, e finjo que leio, para desencorajá-la.
- Pô, Luis Fernando.
- Azar - suspiro.

As I Lay Dying - An Ocean Between Us

Antes mesmo de ouvir "An Ocean Between Us" na íntegra, tive a oportunidade de escutar duas músicas previamente liberadas pela banda. Desde então, uma referência não me fugiu à cabeça: Luis Fernando Verrisimo advertindo certa vez para se ter "Cuidado com o que você pede...". Afinal, nem sempre o que se deseja, acontece conforme imaginado. Pois bem, o meu pedido era que o As I Lay Dying apresentasse um material novo (no sentido literal da coisa), mas, adivinhem, não aconteceu da forma que havia imaginado. "Frail Words Collapse" e "Shadows Are Security" me agradaram muito, e justamente por isso esperava que o novo disco fosse diferente, superior. Ainda assim, me surpreendi. E de uma forma bastante positiva, pois não contava com tamanha evolução. O primeiro contato que tive com o novo álbum, foi a audição de "Within Destruction". Levou algum tempo pra cair a ficha de que se tratava do AILD. O segredo dessa mudança? Vejamos... Adam Dutkiewicz (KSE) na produção; Phil Sgrosso e Nick Hipa trabalhando numa sonoridade mais aguda e entremeando solos aqui e alí; Tim Lambesis em relativa menor evidência; e Jordan Mancino simplesmente magnífico (reafirmando seu posto de um dos melhores bateras de metal da atualidade). Uma mudança bem menos drástica, foi a chegada de Josh Gilbert (This Endearing), que substitui Clint Norris nas suas duas funções. A semelhança entre os backing vocals de ambos pode fazer os mais desavisados pensarem que é Norris o dono das segundas vozes na faixa que dá nome ao disco e em mais 4 canções. "Separation" é um ótimo prelúdio para a primeira música de trabalho: "Nothing Left". A sequência das primeiras 4 faixas é matadora, e mostra que a banda redirecionou-se para o Trash Metal e o Metalcore, pondo um pouco de lado suas influências de Screamo. "A.O.B.U." mostra-se também carregado por uma atmosfera mais enegrecida e sombria do que nunca. O único ponto negativo, foi que infelizmente, deixaram a peteca cair (a energia das primeiras faixas não se faz presente em todo o restante do álbum). Guardo (sempre) a esperança de ver uma evolução ainda maior. Se bem que o dia que isso acontecer, o As I Lay Dying terá atingido a perfeição!


Nota: 9/10
Selo: Metal Blade
Data de lançamento: 21/08/07
Website: www.asilaydying.com/ /
www.myspace.com/asilaydying

Tracklist:
1. Separation
2. Nothing Left
3. An Ocean Between Us
4. Within Destruction
5. Forsaken
6. Comfort Betrays
7. I Never Wanted
8. Bury Us All
9. The Sound of Truth
10. Departed
11. Wrath Upon Ourselves
12. This Is Who We Are

sexta-feira, agosto 24, 2007

Queens of The Stone Age - Era Vulgaris

É certo que "Lullabies to Paralyse" deixou a desejar, principalmente para os admiradores mais fervorosos de "Songs for the Deaf". E isso pode ser explicado. No decorrer da história do Queens of the Stone Age, foram tantas as alterações na formação da banda, que o único integrante remanescente do primeiro registro até o mais recente, é o próprio Joshua Homme. Essas alterações, no entanto, não surtiam muito efeito na sonoridade do grupo. Isso até o último álbum citado, pois durante sua turnê, o polêmico Nick Oliveri e o ilustre Dave Grohl (o que já era esperado) juntaram suas trouxas e partiram. A saída destes dois músicos mexeu muito com o QOTSA. A sonoridade, desde "Lullabies to Paralyze" têm enveradado por ambientes cada vez mais introspectivos, sendo a maioria deles sombrios e psicodélicos. Felizmente, aquele leve toque de ironia e de sarcasmo, ainda se faz presente nas letras. Não só no conteúdo lírico, mas agora ainda mais evidente, a arte da capa também se encaixa nessa característica típica do grupo. "Era Vulgaris" trata, ao longo de suas 11 músicas, do presumível tema referente ao título do disco - a vulgarização que assola os tempos modernos. Logo nos primeiros segundos de "Turnin' on the Screw" experimentei uma sensação de alívio enorme ao sentir que aqueles acordes, a impressão digital da banda, estão bem vivos. Daí em diante, é só satisfação. "Sick, Sick, Sick", que juntamente com "3's and 7's" compõem as primeiras músicas de trabalho do disco, apresentam um dos melhores sons de guitarras do disco. "Make It Wit Chu" (Make IT With You!!!) é mais uma música a pregar peças nos ouvintes. Quem escuta até pensa que se trata de uma inocente canção de ninar, mas mal sabe que se trata mesmo é de um homem desejoso por sexo a qualquer custo (semelhanças com "Go With The Flow"?!). Como em qualquer obra do QOTSA, "Era Vulgaris" é muito rico, podendo ser analisado de várias maneiras. Portanto, não cabe aqui me extender. No que diz respeito à qualidade musical, me dou ao luxo de dizer que trata-se aqui de um ótimo disco, talvez até o terceiro ou segundo melhor dos caras. Mas ainda não foi dessa vez que "Songs for the Deaf" foi batido!

Nota: 8/10
Selo: Interscope
Data de lançamento: 12/06/07
Website: www.qotsa.com/ /
www.myspace.com/queensofthestoneage /

Tracklist:
1. Turnin' on the Screw
2. Sick, Sick, Sick
3. I'm Designer
4. Into the Hollow
5. Misfit Love
6. Battery Acid
7. Make It Wit Chu
8. 3's and 7's
9. Suture Up Your Future
10. River In The Road
11. Run, Pig, Run

sábado, agosto 18, 2007

Nodes Of Ranvier - Defined By Struggle

Música agressiva e rápida nos moldes atuais. Isso é "Defined By Struggle". Logo, não há de se esperar nada além disso dessses estadunidenses do Nodes of Ranvier (nome bastante inusitado, pois os chamados nódulos de Ranvier são estruturas componentes do sistema nervoso do organismo humano. Estranho não?!). Não há de se esperar nada além de "Sermon" também. A abertura serve de trailer do que está por vir. É complicado buscar uma razão para o motivo de, mesmo num contexto musical de demasiada repetição e até mesmo auto-plagio, bandas que insistem em dar murro em ponta de faca, ainda assim conseguem seu espaço e a chance de apresentarem seu trabalho. Uma análise aos moldes anatômicos sobre essa situação se faz totalmente necessária, pois a continuação desse panorama, pode acarretar inúmeras consequências, inclusive o fim irrevogável dessa e de várias outras vertentes musicais relacionadas. Se Kyle Benecke e sua trupe, em seu quarto trabalho, demonstram estar teimosamente dentro dessa panela de pressão, posso facilmente prever que o futuro da banda não é nada promissor. A falta de originalidade, no entanto, não necessariamente indica um álbum de baixa qualidade. O tratamento dado na gravação, a arte de capa, e o instrumental precisamente bem trabalhados atestam o nível do trabalho. Portanto, destaco "Purpose in Pain" e a faixa-título do álbum como as melhores músicas do disco. Mesmo agoniado com toda a situação exposta acima, o que faz meu coração doer de verdade, é ver que músicos competentes (a exemplo deste quinteto) concentram esforços, incansavelmente, em prol de um movimento musical, ao passo que "artistas", sem a menor vocação ou talento, banalizam a arte que é a música cantando sobre guarda-chuvas e afins. Esse mundo está perdido!

Nota: 6/10
Selo: Victory
Data de Lançamento: 24/07/07
Website: www.nodesofranvier.com/ /
www.myspace.com/nodesofranvier /

Tracklist:
1.Sermon
2.Valjean
3.Endless Faith
4.Purpose in Pain
5.Wrathbearer
6.Defined By Struggle
7.Archegos
8.SGT Sorrow
9.Naheenanajar
10.Confront
11.Infidelity