Dizer que praticam metalcore soa por demais delimitador, senão fantasioso. A verdade é que a complexidade sonora a que os gaúchos do It's All Red pretendem chegar, ultrapassa os limites de uma mera rotulação ou enquadramento. A confluência de estilos presente na sonoridade do quinteto vai de um extremo ao outro (do metal nórdico ao pop). E a semente desse trabalho, plantada em 2005, começa a render frutos. "Vicious Words From The Heart", seu primeiro full lengh, lançado ainda em 2007, assusta, e muito. Assusta por conta de sua qualidade excepcional. O álbum é de uma sonoridade dinâmica, enérgica, envolvente, sobretudo intensa, absolutamente fora do normal. "A Party Is Not A Party Unless Someone Gets Home Devastated" e "H5N1" simplesmente não saem da cabeça, é incrível! O toque feminino dado em "Crime Room", ora por vozes suaves ora por urros guturais, encaixou-se perfeitamente no contexto da música. O batera Renato Siqueira exerce sua função de maneira bastante meritosa, em detrimento de não se ater ao óbvio e ao comum. Sua perícia, criatividade e versatilidade realmente impressionam. Os demais componentes: irmãos Volkweis; Rafael (outro Siqueira); e Rafael Mallmann, claro, não deixam por menos - são igualmente virtuosos. Cada qual em seu respectivo instrumento contribui decisivamente para atingir a amplitude a que o som da banda consegue alcançar. É interessante sublinhar que essa contribuição está também no âmbito dos vocais: todos os integrantes cantam, exceto o baterista. A família I.A.R. (por assim dizer), merece toda forma de congratulação. Sem sombra de dúvida gravaram um belo álbum, e que alcançou seu objetivo: impossível ouvi-lo e ficar indiferente.Nota: 10/10
Selo: Independente
Data de lançamento: 2007
Website: www.myspace.com/itsallredmusic
Download do Disco
Tracklist:
01. A Song For The Rage
02. Poisonous (His Darkest Wishes Made Flesh)
03. A Party Is Not A Party Unless Someone Gets Home Devastated
04. H5N1
05. Inventory Of The Missing Things
06. Crime Room
07. Ghosts Caught On Tape
08. And So On...
09. Hell Anytime
10. The Arrival Of Ages
11. 17:42
SEVERA, gravem esse nome! Isso é Hardcore cunhado sob os moldes da pesada realidade do terceiro mundo. Oriundos de Contagem (Minas Gerais), e com cerca de um ano de existência, o Severa lançou no mês de abril seu primeiro registro - um EP homônimo da banda. Imediatamente após o contato com a faixa inicial ("Perder Para Ganhar"), notamos a personalidade forte e original das composições do grupo. O modo com que alternam os momentos de alta e baixa intensidade, retém a atenção do ouvinte do primeiro ao último segundo da audição e a presença constante de riffs encorpados utilizados em sintonia com breakdowns, cria um dinamismo primoroso no conjunto da obra. As letras conseguem propagar facilmente valores como honestidade e perseverança por estarem escritas em português, e pelo fato de serem inteligíveis. O mérito do alcance desses pontos positivos está na competência de Cidin (bateria), Juninho (baixo), Willian (guitarra), Filipe (guitarra) e Daniel (vocal), por igual. Alguns destaques adicionais merecem ser feitos: as faixas "Minha Guerra" e "Falsas Ilusões"; e o bom trabalho na arte gráfica do álbum. Com efeito, o registro (composto por cinco músicas) é de alto nível - feito admirável em se tratando de um debut de uma banda. Nesse sentido, é importante que os integrantes tenham em mente a necessidade de evolução constante e progressiva do trabalho que realizam. Toda a sorte do mundo ao Severa, essa nova promessa do cenário independente brasileiro.
Minas Gerais é o berço de um sem-número de bandas (de altíssima qualidade), há de se convir. Representado a nova safra da cena mineira, está o Enne. Formado há 7 anos atrás, o grupo mantém basicamente a mesma formação desde o início de sua história, tendo havido apenas a troca do ex-baixista Rafa pelo atual Luciano. De lá pra cá, já foram lançados três materiais (duas demos e o debut "Momentum" em 2004). O disco de estréia já mostrava um grupo com uma identidade sonora firme, marcando presença em melodias contagiantes e em refrões "chiclete". A repercussão desse registro rendeu ao quarteto de Belo Horizonte, participação nos principais festivais nacionais de música independente, e ainda, o prêmio London Burning na categoria Revelação, em 2005! A ser lançado oficialmente amanhã, "Nômade" é o segundo álbum da banda. Nesse novo disco, o Enne inovou radicalmente: as letras que antes eram em inglês, agora estão em português. A mudança de idioma fez as músicas soarem muito mais verdadeiras e sinceras, desempenhando bem o seu papel de catarse de emoções. O grupo também redirecionou, sutilmente, sua sonoridade, outrora marcada por pitadas de hardcore melódico, para um universo mais focado no rock alternativo. O trabalho dos guitarristas oscila entre acordes encorpados (como em "Ao acaso"), e melodias expansivas, a exemplo da faixa mais comovente de todas: "Entre dois nós". Os vocais afinadíssimos e marcantes de Jay ficaram perfeitamente encaixados em "Lugar comum", e o músico soube também dividir os refrões de "O melhor que consegui" com Rodrigo Lima (Dead Fish) de forma sincronizada. No quesito conjunto, a banda sagrou-se coesa, uma vez que o notório entrosamento entre Cacau e Luciano ajudou bastante nesse sentido. Os destaques dessa obra vão para o todo: a composição das músicas; a qualidade da gravação; e a impagável arte gráfica do álbum. Trocando em miúdos: o Enne conseguiu manter as características positivas de "Momentum", ampliou-as e inseriu novos elementos que aperfeiçoaram o som da banda. Como todo grande álbum, "Nômade" exige uma ocasião especial para ser apreciado, de certa forma. É ideal para momentos reflexivos e intimistas, onde o ouvinte esteja aberto a ponderações sobre seus sentimentos e suas perspectivas de vida. Afinal, nunca se sabe realmente para onde as estradas nos levarão.
West Berlin, New Jersey, Estados Unidos. Esta é a origem do Fight Amp (anteriormente conhecido como Fight Amputation), banda que lançou no mês passado o seu debut "Hungry For Nothing" via Translation Loss Records. A concepção de sonoridade que se propõem a fazer é bastante interessante: uma salada elementos que vão do Grunge, passando pelo Metal, e terminando no Punk e no Hardcore. O que se verifica, no entanto, é um resultado medíocre. Ainda que instrumentalmente bem executado, o álbum está repleto de falhas graves. O vocal está relegado a terceiro plano (algo como vozes do além) e é muito mal explorado (baseado numa mesma esganicidade incessante, que com o tempo irrita); as guitarras estão muito altas, os riffs são idênticos, e não há qualquer uso otimizado dos pedais, havendo uma única distorção em todo o disco (!); o contra-baixo é mero coadjuvante (seguidor de bumbo); a bateria marca a mesma e sem graça quebrada de ritmo (usando simultaneamente o chimbal, caixa e bumbo, seguido do uso de pratos de ataque, no mesmo processo) simplesmente em todas as músicas e o tempo inteiro, gerando uma sensação de vagareza do tempo, uma espécie de transe temporal, fazendo com que os pouco mais de 30 minutos do registro pareçam penosamente muito mais longos. "Hungry For Nothing" é uma exemplar tortura auditiva! Ouçam a faixa-abertura com o título redundante de "Dead Is Dead" e já saberão o que estará por vir. Há de se frisar, todavia, uma única qualidade perceptível desse álbum: o seu potencial performático. Ainda que seja um martírio ouví-lo, a execução destas músicas no palco tem grandes chances de ser muito bem sucedida. Cabe, portanto, a seguinte pergunta: valeu, de fato, o sacrifício do Fight Amp em ter dispendido tempo e empenho na criação de um álbum medíocre, de vez que poderia ter direcionado melhor suas forças no que pode lhe render melhores resultados: os shows?
O presente ano tem sido extremamente receptivo a novas bandas. Já é bastante considerável a quantidade de lançamentos dos primeiros full lenghs de vários grupos ao redor do mundo até o momento. Incorporando essa avalanche de novidades, estão os britânicos do Trigger The Bloodshed apresentando o seu debut, "Purgation". Diferentemente de alguns fracassos, essa é uma banda nova (literalmente, pois tem apenas 1 ano de existência, e o seu baterista apenas 15!) de extrema qualidade. Apesar da pouca idade, estes rapazes mostram uma maturidade sonora atípica, evidenciada na forma com que executam um Death Metal roots impecável, mesclado a pitadas de grindcore. Produzido por Mark Daghorn (Cradle of Filth, Raging Speedhorn, Mendeed) e mixado por Karl Groom (Dragonforce, Threshold), o álbum recebeu acabamento sonoro fenomenal. A maestria com que Rob e Martyn se revezam para encher o som com riffs precisos e diretos, a destreza monstruosa do moleque Max "tirando leite de pedra" de seu drumkit e a encorpada dada pelo som grave do ex-baixista Jamie, concretiza a parte instrumental oferecendo um prato cheio a ser trabalhado pelo vocalista Char, que de modo algum decepciona, marcando presença com seu vocal gutural laçerante. Adjetivo, por sinal, muito bem empregado no título da primeira música de trabalho do disco (a 3ª faixa). Todas as composições do álbum estão muito bem equilibradas, encontrando-se num mesmo patamar. Seguindo esta lógica, a audição de qualquer uma delas aleatoriamente, traz um panorama geral do que é apreciado em pouco mais de meia hora de duração do disco, respeitando é claro, as peculiaridades de cada composição. Reafirmando o quão fiéis estes rapazes são ao estilo que executam, nenhuma música em "Purgation" atinge os 4 minutos de duração. Há quem se arrisque a dizer que desde o Carcass, com exceção do Napalm Death, a cena death britânica nunca mais esteve em pé de igualdade com as bandas norte-americanas, situação que estaria agora chegando ao fim com o surgimento do Trigger The Bloodshed. Não diria que isso seria um equívoco, mas tampouco é uma certeza. Trata-se, indubitavelmente, de um disco anormal (tendo em vista a alta qualidade do material que é executada por músicos ainda muito jovens), com o objetivo de saciar os anseios de quem gostaria de ouvir o verdadeiro death metal de "antigamente", porém feito nos dias atuais. Mas é necessário acalmar os ânimos e esperar que o tempo prove se estes britânicos irão ou não, corresponder às expectativas postas sobre os seus ombros.

