Minas Gerais é o berço de um sem-número de bandas (de altíssima qualidade), há de se convir. Representado a nova safra da cena mineira, está o Enne. Formado há 7 anos atrás, o grupo mantém basicamente a mesma formação desde o início de sua história, tendo havido apenas a troca do ex-baixista Rafa pelo atual Luciano. De lá pra cá, já foram lançados três materiais (duas demos e o debut "Momentum" em 2004). O disco de estréia já mostrava um grupo com uma identidade sonora firme, marcando presença em melodias contagiantes e em refrões "chiclete". A repercussão desse registro rendeu ao quarteto de Belo Horizonte, participação nos principais festivais nacionais de música independente, e ainda, o prêmio London Burning na categoria Revelação, em 2005! A ser lançado oficialmente amanhã, "Nômade" é o segundo álbum da banda. Nesse novo disco, o Enne inovou radicalmente: as letras que antes eram em inglês, agora estão em português. A mudança de idioma fez as músicas soarem muito mais verdadeiras e sinceras, desempenhando bem o seu papel de catarse de emoções. O grupo também redirecionou, sutilmente, sua sonoridade, outrora marcada por pitadas de hardcore melódico, para um universo mais focado no rock alternativo. O trabalho dos guitarristas oscila entre acordes encorpados (como em "Ao acaso"), e melodias expansivas, a exemplo da faixa mais comovente de todas: "Entre dois nós". Os vocais afinadíssimos e marcantes de Jay ficaram perfeitamente encaixados em "Lugar comum", e o músico soube também dividir os refrões de "O melhor que consegui" com Rodrigo Lima (Dead Fish) de forma sincronizada. No quesito conjunto, a banda sagrou-se coesa, uma vez que o notório entrosamento entre Cacau e Luciano ajudou bastante nesse sentido. Os destaques dessa obra vão para o todo: a composição das músicas; a qualidade da gravação; e a impagável arte gráfica do álbum. Trocando em miúdos: o Enne conseguiu manter as características positivas de "Momentum", ampliou-as e inseriu novos elementos que aperfeiçoaram o som da banda. Como todo grande álbum, "Nômade" exige uma ocasião especial para ser apreciado, de certa forma. É ideal para momentos reflexivos e intimistas, onde o ouvinte esteja aberto a ponderações sobre seus sentimentos e suas perspectivas de vida. Afinal, nunca se sabe realmente para onde as estradas nos levarão. Nota: 9/10
Selo: 53 HC
Data de lançamento: 29/03/2008
Website: www.enne.com.br/ /
www.myspace.com/enne
Tracklist:
1.Ao Acaso
2.Lugar Comum
3.O Melhor Que Consegui
4.Alguma Paz
5.Por Um Segundo
6.Se
7.Mais Uma Vez
8.Entre Dois Nós
9.Insustentável
10.Visceral
11.Por Si Só
12.Evitado
West Berlin, New Jersey, Estados Unidos. Esta é a origem do Fight Amp (anteriormente conhecido como Fight Amputation), banda que lançou no mês passado o seu debut "Hungry For Nothing" via Translation Loss Records. A concepção de sonoridade que se propõem a fazer é bastante interessante: uma salada elementos que vão do Grunge, passando pelo Metal, e terminando no Punk e no Hardcore. O que se verifica, no entanto, é um resultado medíocre. Ainda que instrumentalmente bem executado, o álbum está repleto de falhas graves. O vocal está relegado a terceiro plano (algo como vozes do além) e é muito mal explorado (baseado numa mesma esganicidade incessante, que com o tempo irrita); as guitarras estão muito altas, os riffs são idênticos, e não há qualquer uso otimizado dos pedais, havendo uma única distorção em todo o disco (!); o contra-baixo é mero coadjuvante (seguidor de bumbo); a bateria marca a mesma e sem graça quebrada de ritmo (usando simultaneamente o chimbal, caixa e bumbo, seguido do uso de pratos de ataque, no mesmo processo) simplesmente em todas as músicas e o tempo inteiro, gerando uma sensação de vagareza do tempo, uma espécie de transe temporal, fazendo com que os pouco mais de 30 minutos do registro pareçam penosamente muito mais longos. "Hungry For Nothing" é uma exemplar tortura auditiva! Ouçam a faixa-abertura com o título redundante de "Dead Is Dead" e já saberão o que estará por vir. Há de se frisar, todavia, uma única qualidade perceptível desse álbum: o seu potencial performático. Ainda que seja um martírio ouví-lo, a execução destas músicas no palco tem grandes chances de ser muito bem sucedida. Cabe, portanto, a seguinte pergunta: valeu, de fato, o sacrifício do Fight Amp em ter dispendido tempo e empenho na criação de um álbum medíocre, de vez que poderia ter direcionado melhor suas forças no que pode lhe render melhores resultados: os shows?
O presente ano tem sido extremamente receptivo a novas bandas. Já é bastante considerável a quantidade de lançamentos dos primeiros full lenghs de vários grupos ao redor do mundo até o momento. Incorporando essa avalanche de novidades, estão os britânicos do Trigger The Bloodshed apresentando o seu debut, "Purgation". Diferentemente de alguns fracassos, essa é uma banda nova (literalmente, pois tem apenas 1 ano de existência, e o seu baterista apenas 15!) de extrema qualidade. Apesar da pouca idade, estes rapazes mostram uma maturidade sonora atípica, evidenciada na forma com que executam um Death Metal roots impecável, mesclado a pitadas de grindcore. Produzido por Mark Daghorn (Cradle of Filth, Raging Speedhorn, Mendeed) e mixado por Karl Groom (Dragonforce, Threshold), o álbum recebeu acabamento sonoro fenomenal. A maestria com que Rob e Martyn se revezam para encher o som com riffs precisos e diretos, a destreza monstruosa do moleque Max "tirando leite de pedra" de seu drumkit e a encorpada dada pelo som grave do ex-baixista Jamie, concretiza a parte instrumental oferecendo um prato cheio a ser trabalhado pelo vocalista Char, que de modo algum decepciona, marcando presença com seu vocal gutural laçerante. Adjetivo, por sinal, muito bem empregado no título da primeira música de trabalho do disco (a 3ª faixa). Todas as composições do álbum estão muito bem equilibradas, encontrando-se num mesmo patamar. Seguindo esta lógica, a audição de qualquer uma delas aleatoriamente, traz um panorama geral do que é apreciado em pouco mais de meia hora de duração do disco, respeitando é claro, as peculiaridades de cada composição. Reafirmando o quão fiéis estes rapazes são ao estilo que executam, nenhuma música em "Purgation" atinge os 4 minutos de duração. Há quem se arrisque a dizer que desde o Carcass, com exceção do Napalm Death, a cena death britânica nunca mais esteve em pé de igualdade com as bandas norte-americanas, situação que estaria agora chegando ao fim com o surgimento do Trigger The Bloodshed. Não diria que isso seria um equívoco, mas tampouco é uma certeza. Trata-se, indubitavelmente, de um disco anormal (tendo em vista a alta qualidade do material que é executada por músicos ainda muito jovens), com o objetivo de saciar os anseios de quem gostaria de ouvir o verdadeiro death metal de "antigamente", porém feito nos dias atuais. Mas é necessário acalmar os ânimos e esperar que o tempo prove se estes britânicos irão ou não, corresponder às expectativas postas sobre os seus ombros.



Guardada as devidas proporções, eis uma mistureba de At The Drive-In + Underoath: Thursday. "Kill the house lights", o quarto full-lengh desses veteranos do post-hardcore é uma espécie de retrospectiva da produção da banda. Tanto o é que o novo álbum do grupo vem acompanhado de um DVD, abrangendo esses 10 anos de existência da banda em forma de documentário, e em forma de performances ao longo da estrada. O título do registro é inspirado na letra de "M. Shepard" do álbum War All The Time, que trata do caso do estudante universitário Matthew Shepard, espancado até a morte, vítima de homofobia. O álbum é iniciado com "Ladies and Gentlemen: My Brother, the Failure", faixa que poe o ouvinte logo em contato com o vocal de Geoff Rickly. Para ouvidos virgens de Thursday (como os meus), o modo que Geoff canta pode soar um tanto quanto desafinado, mas isso não tira o brilho da música. Após o primeiro contato, esse mesmo cantor vai se transformando no elo de ligação entre você e o ambiente dramático, agoniado dessa faixa, muito em parte de seu tremendo alcance vocal. Mais adiante em "Signals Over the Air", esse sexteto mostra uma nova faceta, mais experimental. "Dead Songs" parece um pouco tumultuada de início, mas acaba ganhando pelo refrão simpático. Em suma, nada muito além do que se prevê desde o início do registro, o que no entanto não vem a desagradar. O fato de o disco conter algumas faixas ao vivo e outras em formato demo, é mais um item positivo adicionado no balanço geral. 
Uma das bandas brasileiras de hardcore moderno mais notáveis aqui e no exterior atualmente, o Paura, impressiona de novo. Conseguiu o milagre de superar o excelente "Youkillusweovercome"! Quem já conhece essa pérola vai entender a dimensão do feito desse quinteto paulistano. Tal fardo de superação não se restringia somente à qualidade do registro. Ia além. "Youkillusweovercome" foi o responsável pela expansão e consolidação do prestígio da banda no exterior, mais especificamente nos países sul-americanos como Chile e Argentina (onde realisaram uma turnê). Ultrapassando os 10 anos de estrada e com o recente lançamento do sexto disco da carreira, os veteranos do Paura provam que não se acomodam um minuto sequer com suas conquistas. Isso inclusive só lhes dá mais ânimo de continuar batalhando em busca da superação e da perfeição a cada trabalho. Sendo assim, os bons resultados sempre aparecem. Gravado e mixado pelo próprio baterista da banda (Henrique Pucci), em seu estúdio, e posteriormente masterizado por Alexander Dietz (guitarrista do Heaven Shall Burn), está o que Fábio Prandini (vocalista) afirmou como sendo "o disco definitivo do Paura". "Reverse The Flow" é fúria, revolta, ódio, medo, pavor...Tudo milimetricamente bem dosado para não criar exageros e soar forçoso. Junte a velha guarda hardcoriana com pegadas ao melhor estilo Sepultura, de forma única, e terás o trailer da obra. O conjunto das cordas (guitarras e baixo) está impecável. A voz de Fábio encaixou-se perfeitamente na proposta da banda, e a técnica de Henrique foi devidamente destacada. As faixas que conseguiram se sobressair a esse conjunto de músicas de tamanha qualidade são: "The Killing Mask", "Source Of Violence" e a que dá nome ao disco. Os 12 meses de trabalho árduo dispendidos na composição do álbum transmitem ao ouvinte a sensação de que cada milésimo de segundo, cada verso, cada arranjo, enfim, cada componente do disco teve um propósito muito bem pensado. A espera foi grande, sim. Mas certamente, foi extasiante ouvir essa perfeição de resultado. "Reverse The Flow" é item obrigatório para ouvintes de tímpano apurado.